A GUERRA DA TRĂPLICE ALIANĂA CONTRA O PARAGUAI ANIQUILOU A ĂNICA EXPERIĂNCIA EXITOSA DE
DESENVOLVIMENTO INDEPENDENTE
"O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pĂŽmulos, recortavase contra a forte luz do meio-dia. Ăamos para Assunção, partindo da fronteira sul, num ĂŽnibus
para vinte pessoas que, nĂŁo sei como, transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada.
Sentamo-nos num pĂĄtio aberto, Ă sombra de uma ĂĄrvore de folhas carnosas. Aos nossos olhos,
abria-se o brilho ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a
horizonte, nada perturba a transparĂȘncia do ar do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro,
camponĂȘs de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em castelhano. “Os paraguaios
somos pobres e poucos”, disse-me. Explicou que havia descido atĂ© EncarnaciĂłn Ă procura de
trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas juntar uns pesos para a passagem de
volta. Muitos anos antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires e no sul do
Brasil. Agora vinha a colheita do algodĂŁo e muitos braceros paraguaios pegavam a estrada,
como em todos os anos, rumo Ă s terras argentinas. “Mas eu jĂĄ tenho 63 anos, meu coração jĂĄ
nĂŁo suporta essas andanças enroladas.”
Somam meio milhĂŁo os paraguaios que abandonaram definitivamente a pĂĄtria, nos
Ășltimos vinte anos. A misĂ©ria induz ao ĂȘxodo os habitantes do paĂs que, atĂ© quase um sĂ©culo
atrås, era o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que
apenas duplica a que tinha entĂŁo, e como a BolĂvia, Ă© um dos dois paĂses sul-americanos mais
pobres e atrasados. Os paraguaios padecem a herança de uma guerra de extermĂnio que se
integrou Ă histĂłria da AmĂ©rica Latina como o seu capĂtulo mais infame. Chamou-se Guerra da
TrĂplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocĂdio. NĂŁo deixaram
pedra sobre pedra e tampouco habitantes varÔes entre os escombros. Embora a Inglaterra não
tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e
seus industriais que resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasĂŁo foi
financiada, do princĂpio ao fim, pelo Banco de Londres, pela casa Baring Brothers e pela
banca Rothschild, através de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino dos
paĂses vencedores.[1]
Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma exceção na América Latina: a
Ășnica nação que o capital estrangeiro nĂŁo havia deformado. O longo governo de mĂŁo de ferro
do ditador Gaspar RodrĂguez de Francia (1814-1840) havia incubado, na matriz do
isolamento, um desenvolvimento econĂŽmico autĂŽnomo e sustentado. O Estado onipotente,
paternalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que nĂŁo existia, na tarefa de organizar
a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia apoiara-se nas massas campesinas para
esmagar a oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior estendendo um estrito cordĂŁo
sanitĂĄrio nas fronteiras com os restantes paĂses do vice-reinado do Rio da Prata. As
expropriaçÔes, os desterros, as prisÔes, as perseguiçÔes e as multas não tinham servido de
instrumentos para a consolidação do domĂnio interno dos latifundiĂĄrios e comerciantes, mas,
ao contrårio, tinham sido usados para sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde,
as liberdades polĂticas e o direito de oposição, mas naquela etapa histĂłrica sĂł os saudosos
dos privilégios perdidos estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas
privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o Ășnico paĂs da AmĂ©rica Latina que nĂŁo
tinha mendigos, famélicos ou ladrÔes[2]; os viajantes da época encontravam ali um oåsis de
tranquilidade em meio Ă s demais comarcas convulsionadas por contĂnuas guerras. O agente
norte-americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que no Paraguai “nĂŁo hĂĄ criança
que nĂŁo saiba ler e escrever”. Era tambĂ©m o Ășnico paĂs que nĂŁo vivia com o olhar cravado no
outro lado do mar. O comĂ©rcio exterior nĂŁo se constituĂa no eixo da vida nacional; a doutrina
liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para
os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por causa de seu isolamento
mediterrĂąneo, estava equacionando desde o princĂpio do sĂ©culo. O extermĂnio da oligarquia
tornou possĂvel a concentração das bases econĂŽmicas fundamentais nas mĂŁos do Estado, para
levar adiante esta polĂtica autĂĄrquica de desenvolvimento dentro das fronteiras.
Os posteriores governos de Carlos Antonio LĂłpez e seu filho Francisco Solano LĂłpez
continuaram e revigoraram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os
invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha de telégrafos,
uma ferrovia e uma boa quantidade de fåbricas de materiais de construção, tecidos, lenços,
ponchos, papel, tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo
Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhÔes,
morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados canhÔes de
bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econĂŽmicas
essenciais, estava nas mĂŁos do Estado. O paĂs dispunha de uma frota mercante nacional, e
tinham sido construĂdos no estaleiro de Assunção muitos dos navios que ostentavam a
bandeira paraguaia ao longo do rio ParanĂĄ ou cruzavam o AtlĂąntico e o MediterrĂąneo. O
Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o
consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança
comercial mostrava um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estĂĄvel, e
possuĂa suficiente riqueza para efetivar enormes investimentos pĂșblicos sem recorrer ao
capital estrangeiro. O paĂs nĂŁo devia nem um centavo no exterior, e estava em condiçÔes de
manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se colocavam a
serviço do paĂs em vez de pĂŽr o paĂs a seu serviço, e enviar Ă Europa muitos jovens
universitårios paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O excedente
econĂŽmico gerado pela produção agrĂcola nĂŁo era esbanjado no luxo estĂ©ril de uma oligarquia
inexistente, nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mĂŁos rapinantes dos
usurårios, nem na rubrica lucros que o Império britùnico nutria com os serviços de fretes e
seguros. A esponja imperialista nĂŁo absorvia a riqueza que o paĂs produzia. 98 por cento do
territĂłrio paraguaio era de propriedade pĂșblica: o Estado cedia aos camponeses a exploração
das parcelas em troca da obrigação de povoå-las e cultivå-las de forma permanente e sem o
direito de vendĂȘ-las. AlĂ©m disso, havia 64 estancias de la patria, fazendas que o Estado
administrava diretamente. As obras de irrigação, represas e canais, e as novas pontes e
estradas contribuĂam em importante grau para a elevação da produtividade agrĂcola. Foi
resgatada a tradição indĂgena das colheitas anuais, que fora descartada pelos conquistadores.
O alento vivo das tradiçÔes jesuĂtas sem dĂșvida facilitava todo esse processo criador.[3]
O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo da indĂșstria nacional e do
mercado interno, especialmente reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos aos
navios britùnicos que bombardeavam o resto da América Latina com manufaturas de
Manchester e Liverpool. O comĂ©rcio inglĂȘs nĂŁo dissimulava sua inquietude, nĂŁo sĂł porque
se lhe afigurava invulnerĂĄvel aquele Ășltimo foco de resistĂȘncia nacional no coração do
continente, mas tambĂ©m e sobretudo pela força do exemplo que a experiĂȘncia paraguaia
irradiava perigosamente para a vizinhança. O paĂs mais progressista da AmĂ©rica Latina
construĂa seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem emprĂ©stimos da banca inglesa e
sem as bĂȘnçãos do livre-comĂ©rcio.
Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, tornava-se mais aguda sua
necessidade de romper a reclusĂŁo. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais
intensos e diretos com o mercado internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai
estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois paĂses podiam negar o
oxigĂȘnio aos seus pulmĂ”es fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios,
ou fixando impostos arbitrĂĄrios para o trĂąnsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus
vizinhos era imprescindĂvel, em nome da consolidação do estado oligĂĄrquico, acabar com o
escĂąndalo daquele paĂs que se bastava a si mesmo e nĂŁo queria ajoelhar-se diante dos
mercadores britĂąnicos.
O ministro inglĂȘs em Buenos Aires, Edward Thornton, participou ativamente dos
preparativos da guerra. Ăs vĂ©speras da deflagração, estava presente, como assessor do
governo, nas reuniÔes do gabinete argentino, sentando-se ao lado do presidente Bartolomeu
Mitre. Diante de seu atento olhar foi maquinada a trama de provocaçÔes e de enganos que
culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do Paraguai. VenĂąncio Flores
invadiu o Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes vizinhos, e depois da matança
de PaysandĂș estabeleceu em MontevidĂ©u seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos
Aires. A TrĂplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio havia ameaçado
com a guerra se o Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se fechava a tenaz de
ferro na garganta de seu paĂs encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador
liberal Efraim Cardozo, no entanto, nĂŁo vĂȘ nenhum inconveniente em sustentar que LĂłpez
confrontou o Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe negara a mĂŁo de
uma de suas filhas. A guerra nascia. NĂŁo era obra de Cupido, mas de MercĂșrio.
A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio LĂłpez de “Ătila da
AmĂ©rica”. E clamavam os editoriais: “Ă preciso matĂĄ-lo como a um rĂ©ptil”. Em setembro de
1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção.
Descrevia o Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidĂȘncia o que realmente
interessava: “Os impostos de importação de quase todos os artigos sĂŁo de vinte a 25 por cento
ad valorem; mas como este valor é calculado sobre o preço corrente dos artigos, o imposto
que se paga chega frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço da fatura. Os
impostos de exportação sĂŁo de 10 a 20 por cento do valor...” Em abril de 1965, o Standard,
diĂĄrio inglĂȘs de Buenos Aires, jĂĄ celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o
Paraguai, cujo presidente “infringiu todos os usos das naçÔes civilizadas”, e anunciava que a
espada do presidente argentino Mitre “levarĂĄ em sua trajetĂłria, alĂ©m do peso das glĂłrias
passadas, o impulso irresistĂvel da opiniĂŁo pĂșblica por uma causa justa”. O tratado com o
Brasil e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; seus termos draconianos foram
publicados um ano depois no diĂĄrio britĂąnico The Times, que o obteve dos banqueiros
credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores repartiam antecipadamente os
despojos do vencido. A Argentina assegurava para si o territĂłrio de Misiones e o imenso
Chaco; o Brasil devorava uma imensa ĂĄrea a oeste de suas fronteiras. O Uruguai, governado
por um tĂtere das duas potĂȘncias, nĂŁo ficava com nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção
em trĂȘs meses. A guerra, contudo, durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo
dos fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O “oprobrioso tirano” Francisco
Solano LĂłpez encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que
no Ășltimo meio sĂ©culo nĂŁo conhecera guerra alguma, imolou-se ao seu lado. Homens,
mulheres, crianças e velhos: todos se bateram como leÔes. Os prisioneiros feridos arrancavam
as ataduras para que nĂŁo os obrigassem a lutar contra seus irmĂŁos.
Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, velhos e meninos que punham
barba postiça para impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real ou imaginåria,
fuzilou seu irmĂŁo e um bispo que com ele marchavam naquela caravana sem destino. Quando,
finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e lançaço na densa mata do cerro
CorĂĄ, ainda conseguiu dizer: “Morro com minha pĂĄtria”, e era verdade.
As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com a faca entre os dentes.
Vinham para redimir o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra, o Paraguai
tinha uma população um pouco menor do que a da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios,
menos do que a sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os
vencedores, arruinados pelo alto custo do crime, estavam nas mĂŁos dos banqueiros ingleses
que tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de
escravos e de presos, ainda ganhou territĂłrios, mais de 60 mil quilĂŽmetros quadrados, e mĂŁo
de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram levados para trabalhar nos cafezais
paulistas com a marca de ferro da escravidĂŁo. A Argentina do presidente Mitre, que havia
esmagado seus prĂłprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilĂŽmetros quadrados de terra
paraguaia e outros frutos do butim, segundo o prĂłprio Mitre havia anunciado quando escreveu:
“Os prisioneiros e demais artigos de guerra nĂłs dividiremos na forma combinada”. O Uruguai,
onde os herdeiros de Artigas jĂĄ estavam mortos ou derrotados, e a oligarquia mandava,
participou da guerra como sĂłcio minoritĂĄrio e sem recompensas. Alguns dos soldados
uruguaios enviados Ă campanha do Paraguai tinham embarcado nos navios com as mĂŁos
amarradas. Os trĂȘs paĂses experimentaram uma bancarrota financeira que agravou a
dependĂȘncia da Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre.[4]
O Brasil havia cumprido a missĂŁo que o ImpĂ©rio britĂąnico lhe atribuĂra desde os tempos
em que os ingleses transladaram o trono portuguĂȘs para o Rio de Janeiro. No princĂpio do
século XIX, tinham sido claras as instruçÔes de Canning ao embaixador, lorde Strangford:
“Fazer do Brasil um empĂłrio para as manufaturas britĂąnicas destinadas ao consumo de toda a
AmĂ©rica do Sul”. Pouco antes do inĂcio da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma
nova linha fĂ©rrea britĂąnica em seu paĂs e pronunciara um inflamado discurso: “Qual a força
que impele o progresso? Senhores, Ă© o capital inglĂȘs!” Do Paraguai derrotado nĂŁo
desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios
fechados ao comĂ©rcio, a independĂȘncia econĂŽmica e vastas zonas de seu territĂłrio. Dentro
das fronteiras reduzidas pelo espĂłlio, os vencedores implantaram o livre-cĂąmbio e o
latifĂșndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais, os
prĂ©dios das escolas. Sucessivos governos tĂteres seriam instalados em Assunção pelas forças
estrangeiras de ocupação. TĂŁo logo terminou a guerra, sobre as ruĂnas ainda fumegantes do
Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britùnico, claro. Seu
valor nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao Paraguai chegou menos da
metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dĂvida a mais de trĂȘs milhĂ”es. A
Guerra do Ăpio havia terminado quando foi assinado em Nanking o tratado de livre-comĂ©rcio
que assegurou aos comerciantes britĂąnicos o direito de introduzir livremente a droga no
territĂłrio chinĂȘs. TambĂ©m a liberdade de comĂ©rcio foi garantida pelo Paraguai depois da
derrota. Foram abandonadas as plantaçÔes de algodão, e Manchester arruinou a produção
tĂȘxtil; a indĂșstria nacional nĂŁo ressuscitou jamais.
O Partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memĂłria
dos heróis, mas ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22 traidores do marechal
Solano LĂłpez, “legionĂĄrios” a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo
Stroessner, que nos Ășltimos quinze anos converteu o Paraguai num grande campo de
concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram
ao seu paĂs com altas qualificaçÔes e ardentes elogios: “Ă digno de um grande futuro...”
Durante seu reinado, Stroessner descartou os interesses anglo-argentinos, dominantes no
Paraguai nas Ășltimas dĂ©cadas, em benefĂcio do Brasil e seus donos norte-americanos. Desde
1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai para comĂȘ-lo com duas bocas, alternamse no aproveitamento dos despojos do paĂs derrotado, mas, por sua vez, padecem o
imperialismo da grande potĂȘncia do momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo
e o subimperialismo. Antes o ImpĂ©rio britĂąnico era o elo maior da corrente de dependĂȘncias
sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que nĂŁo ignoram a importĂąncia geopolĂtica desse
paĂs encravado no centro da AmĂ©rica do Sul, mantĂ©m em solo paraguaio um sem-nĂșmero de
assessores que treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos econÎmicos,
reestruturam a universidade ao seu arbĂtrio, inventam um novo esquema polĂtico democrĂĄtico
para o paĂs e retribuem com emprĂ©stimos onerosos os bons serviços do regime[5]. Mas o
Paraguai é também colÎnia de colÎnias. Usando a reforma agråria como pretexto, o governo
de Stroessner, fazendo-se de distraĂdo, derrogou a disposição legal que proibia a venda a
estrangeiros de terras das zonas de fronteira seca, e hoje atĂ© os territĂłrios fiscais caĂram nas
mãos de latifundiårios brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paranå com a
cumplicidade do presidente, associados a terras-tenentes que falam portuguĂȘs. Cheguei Ă
movediça fronteira do nordeste do Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido
marechal Solano LĂłpez, e ali pude descobrir que sĂł tĂȘm valor aqueles que estampam a efĂgie
do vitorioso imperador Pedro II. O resultado da Guerra da TrĂplice Aliança, transcorrido um
século, ganha ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos
paraguaios para que possam circular em seu prĂłprio paĂs; sĂŁo brasileiras as bandeiras e as
igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrå, a maior fonte potencial de
energia de toda a AmĂ©rica Latina, que hoje se chamam, em portuguĂȘs, Sete Quedas, e a zona
de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo.
O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, expressa-se de mil maneiras.
Quando o presidente Johnson, em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos,
Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos para que colaborassem no serviço. O
batalhĂŁo se chamou – uma piada sinistra – “Marechal Solano LĂłpez”. Os paraguaios atuavam
sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição:
o general Penasco Alvim comandou as tropas latino-americanas cĂșmplices da matança.
Exemplos outros e semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma
concessĂŁo de petrĂłleo em seu territĂłrio, mas o negĂłcio da distribuição de combustĂveis e a
petroquĂmica, no Brasil, pertencem aos norte-americanos. A MissĂŁo Cultural Brasileira Ă©
dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norteamericanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil. O estado-maior do exército
paraguaio recebe assessoramento não só de técnicos do Pentågono, mas também de generais
brasileiros, que por sua vez respondem ao PentĂĄgono como o eco responde Ă voz. Pela via
aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, mas
muitas das respectivas fĂĄbricas em SĂŁo Paulo sĂŁo, desde a avalanche desnacionalizadora
destes Ășltimos anos, propriedade de corporaçÔes multinacionais.
Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o Paraguai de um século atrås ser
impunemente comparado com o Paraguai de agora, empĂłrio do contrabando na bacia do Prata
e reino da corrupção institucionalizada? Num ato polĂtico em que o partido do governo, entre
manifestaçÔes de jĂșbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com o de hoje, um
jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito, vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa
assistĂȘncia fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson & Hedges. EmAssunção, a
escassa classe mĂ©dia bebe uĂsque Ballantine’s em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas
ruas os Ășltimos modelos dos mais luxuosos automĂłveis fabricados nos Estados Unidos ou
Europa, trazidos ao paĂs de contrabando ou atravĂ©s do pagamento prĂ©vio de minguados
impostos, ao mesmo tempo em que circulam carretas de bois carregando lentamente os frutos
para o mercado: a terra Ă© trabalhada com arados de madeira e os tĂĄxis sĂŁo Impalas 1970.
Stroessner diz que o contrabando Ă© “o preço da paz”: os generais enchem os bolsos e nĂŁo
conspiram. A indĂșstria, no entanto, agoniza antes de crescer. O Estado sequer cumpre o
decreto que manda preferir os produtos das fĂĄbricas nacionais nas aquisiçÔes pĂșblicas. Os
Ășnicos triunfos que, com orgulho, o Estado exibe nesta matĂ©ria, sĂŁo as fĂĄbricas da Coca-cola,
Crush e Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição norte-americana para o
progresso do povo paraguaio.
O Estado manifesta que sĂł vai intervir diretamente na criação de empresas “quando o
setor privado nĂŁo demonstrar interesse”[6], e o Banco Central comunica ao Fundo MonetĂĄrio
Internacional que “decidiu implantar um regime de mercado livre de cĂąmbios e abolir as
restriçÔes ao comĂ©rcio e Ă s transaçÔes em divisas”; um folheto editado pelo MinistĂ©rio de
IndĂșstria e ComĂ©rcio informa aos investidores que o paĂs outorga “concessĂ”es especiais para
o capital estrangeiro”. Isentam-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de
tarifas aduaneiras “para criar um clima propĂcio aos investimentos”. Um ano depois de
instalar-se emAssunção, o National City Bank de Nova York recupera integralmente o capital
investido. A banca estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos
externos que acentuam sua deformação econÎmica e hipotecam ainda mais sua soberania. No
campo, 1,5 por cento dos proprietårios dispÔe de 90 por cento das terras exploradas, e se
cultiva uma ĂĄrea equivalente a menos de 2 por cento da superfĂcie total do paĂs. O plano
oficial de colonização no triĂąngulo de CaaguazĂș oferece aos camponeses famintos mais
tumbas do que prosperidade.[7]
A TrĂplice Aliança continua sendo um grande ĂȘxito.
Os fornos da fundição de IbycuĂ, onde foram forjados os canhĂ”es que defenderam a pĂĄtria
invadida, estĂŁo num lugar que agora se chama “Mina-cuĂ©”, que em guarani significa “Foi
mina”.
Ali, entre pĂąntanos e mosquitos, junto Ă caliça de um muro destruĂdo, jaz ainda a base da
chaminé que, hå um século, os invasores explodiram com dinamite, e também os pedaços de
ferro retorcido das instalaçÔes desfeitas. Vivem na zona uns poucos camponeses em farrapos,
que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo. Contudo, dizem eles que em
certas noites ali se escutam ruĂdos de mĂĄquinas e batidas de martelos, estampidos de canhĂ”es
e alaridos de soldados."